01 março 2007

O que é o Calvinismo?

É surpreendente como parece difícil para algumas pessoas entenderem o que é o Calvinismo. E, todavia, o assunto não apresenta dificuldades de maior. Pode ser colocado numa simples afirmação; e isto num simples nível para a compreensão de uma mente religiosa. Pois o Calvinismo é simplesmente a religião na sua pureza. Temos, assim, que conceber a religião na sua pureza e isso é o Calvinismo.

Em que atitude da mente e coração tem a religião mais plenamente os seus direitos? Não é na atitude da oração? Quando nos ajoelhamos diante de Deus, não só corporalmente, mas também com a mente e o coração, assumimos uma atitude que acima de todas as outras merece o nome de religiosa. E esta atitude religiosa por via da eminência é obvia e justamente uma atitude de completa dependência e modesta confiança. Aquele que se aproxima de Deus em oração aproxima-se não num espírito de auto-afirmação, mas num espírito de confiante dependência. Nunca ninguém orou a Deus assim: "Ó Deus, sabes que sou o arquitecto da minha própria vida e o determinador do meu próprio destino. Podes, na verdade, ter feito algo para me ajudar a segurar os meus propósitos após eu os ter determinado. Mas o meu coração pertence-me e tu não podes introduzir-te nele; a minha vontade pertence-me e tu não a podes vergar. Quando precisar da tua ajuda, chamar-te-ei. Enquanto isso, deves aguardar que isso me agrade". O Homem pode, por vezes, raciocinar desta maneira; mas não é a maneira como ora. Houve, na verdade, uma vez que dois homens subiram ao templo para orar. E um deles manteve-se de pé orando para si próprio (pode este "si próprio" ter um significado mais profundo do que aparece à superfície?), "Deus, obrigado porque não sou como os demais homens", enquanto o outro batia no peito dizendo "Deus, tem piedade de mim um pobre pecador". Mesmo o primeiro reconheceu uma certa dependência de Deus, pois agradeceu-lhe as suas virtudes. Mas não duvidamos qual dos dois exibiu o mais puro modo religioso. Houve um Homem que o disse clara e enfaticamente.

Assim, todo o indivíduo assume uma atitude religiosa quando ora. Mas muitos encerram esta atitude nas suas orações, evacuando-as das suas vidas com o Ámen, levantando-se para assumir uma atitude completamente diferente, se não do coração, pelo menos das suas mentes. Oram como se dependessem somente da graça de Deus; raciocinam - talvez até vivam - como se Deus, pelo menos em algumas actividades, estivesse dependente deles. O verdadeiro calvinista é aquele que está determinado a preservar em todo o seu pensar, seu sentir e seu viver a atitude que toma quando em oração. Quer isto dizer que ele é o homem que determina que a religião na sua pureza toma todo o seu significado em todo o seu pensar, sentir e viver. É este o terreno do seu modo especial de pensar, razão pela qual ele é chamado de Calvinista: é também o terreno do seu modo de agir no mundo, razão pela qual tornou-se a maior força regeneradora no mundo. Outros homens são calvinistas quando ajoelhados; o Calvinista é o homem que determinou que o seu intelecto, mente e vontade permanecerão ajoelhados continuamente e somente nesta atitude pensará, sentirá e viverá. O Calvinismo é, portanto, aquele tipo de pensar no qual a verdadeira atitude religiosa de completa dependência de Deus e humilde confiança somente na sua graça para salvação toma os seus plenos direitos.

No fundo existem somente dois tipos de pensamento religiosos no mundo - se pudermos utilizar em ambos o termo "religioso". Existe a religião da fé e a "religião" das obras. O Calvinismo é a pura personificação da primeira; o que na história da Igreja é conhecido por Pelagianismo é a personificação da última. Todas as demais formas de ensino "religioso" que são conhecidas na Cristandade não são senão tentativas instáveis de compromisso entre as duas. No início do século V, as duas formas fundamentais entraram em conflito directo no seu tipo mais notável personificado nas pessoas de Agostinho e Pelágio. Ambos gastaram-se procurando vidas melhores para os homens. No entanto, nas suas exortações Pelágio dirigia os homens de volta a si mesmos; eles tinham a capacidade, dizia Pelágio, de fazer tudo o que Deus lhes pedia. Agostinho, pelo contrário, dirigia os homens às suas próprias fraquezas em relação a Deus; "Ele mesmo", dizia no seu discurso, "Ele é o nosso poder". Uma é a "religião" da auto-dependência orgulhosa; a outra é a religião da dependência de Deus. Uma é a "religião" das obras; a outra é a religião da fé. Uma nem sequer é "religião" - é mero moralismo; a outra é tudo aquilo que no mundo merece ser chamado religião. Na devida proporção em que esta atitude esteja presente na nossa mente, sentimento e vida é que podemos considerar-nos religiosos. Quando ela reinar na nossa mente, sentimento e vida, então somos verdadeiramente religiosos. Verdadeiro Calvinismo é aquele pensamento em que ela começou a reinar.

"Existe um estado de espírito", diz o Prof. William James nas suas palestras sobre "The Varieties of religious Experiences", "conhecido do homem religioso, mas não dos outros, no qual a vontade humana de auto-afirmação e auto-confiança é deslocada pela vontade de calar as nossas bocas e sermos como nada diante do fluxo e enchente de Deus". Ele descreve a diferença entre o verdadeiro modo religioso e o o que ele chama "moralismo". "O moralista", continua ele, "tem que suster a respiração e manter os músculos tensos"; e as coisas correm bem com ele na medida em que o consiga fazer. O homem religioso, pelo contrário, encontra a sua consolação na sua própria falta de poder; a sua confiança não se encontra em si próprio, mas em Deus; "e a hora da sua morte moral transforma-se no seu nascimento espiritual". O analista psicológico conseguiu compreender a diferença entre moralismo e religião. É a diferença entre confiarmos em nós mesmos e confiarmos em Deus. E quando a confiança em nós mesmos desaparece em nós para dar lugar à confiança em Deus, então aí temos o Calvinismo. Sob o nome de religião no seu expoente máximo, o que o Prof. W. James realmente descreveu é o mero Calvinismo.

Podemos, assim, tomar o testemunho do Prof. W. James como o testemunho de que a religião no seu expoente máximo é precisamente o Calvinismo. Existem muitas formas de ensino religioso no mundo que não são o Calvinismo. Porque mesmo o ensino religioso oferece-nos frequentemente apenas "luzes quebradas". Não existe religião mais verdadeira no mundo, contudo, que não seja Calvinista - Calvinista na sua essência, Calvinista nas suas implicações. Quando estas implicações são devidamente tiradas e estabelecidas e a essência atinge os seus plenos direitos, então obtemos o Calvinismo. Na proporção em que somos religiosos - e só nessa proporção - então somos Calvinistas; e quando a religião atinge o seu pleno direito na nossa mente, sentimento e vida, então seremos verdadeiramente Calvinistas. É a razão pela qual os que têm um vislumbre destas coisas amam ardentemente aquilo que os homens chamam "Calvinismo", por vezes com um ar de contentamento; e é porque se unem a ele com entusiasmo. Não é meramente a esperança da verdadeira religião do mundo: é a verdadeira religião no mundo - na medida em que porventura a verdadeira religião exista.

B. B. Warfield

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