20 março 2007

A sociedade que se dane (Recebido por E-mail)

A sociedade que se dane.

Ontem de manhã no caminho para trabalho liguei o rádio, como sempre faço, e coincidentemente, era o exato momento em que começa o comentário do Cony e do Xexéo na CBN.

O Heródoto Barbeiro, ancora do programa, perguntou a ambos articulistas sobre a postura do Papa Bento XVI em confirmar a posição dogmática da igreja Católica com referência a assuntos polêmicos como aborto, homossexualismo, segundo casamento e celibato.

Com certeza havia uma grande expectativa dos movimentos liberais em relação a postura do Pontífice, mas a posição do mesmo não foi surpresa, visto ser conhecida sua história na igreja. O hoje Bento XVI já foi o cardeal Joseph Ratzinger , prefeito da Congregação para doutrina da Fé, nome, como passou a ser chamado o antigo "Tribunal da Santa Inquisição".

Confesso que me surpreendi com a postura do Cony. Não o conheço, não sei da sua história, mas o preconceito atrapalha a visão e sempre enxerguei escritores e jornalista como liberais.

O Cony diz que não existe nada de novo, e que Bento XVI apenas confirmou uma postura adotada pela igreja já em vinte séculos. Eis algumas frases interessantes do mesmo:

"...é católico quem quer, num é quem pode não, é quem quer...";

"...se for fazer adaptações a cada época, vira o programa do Faustão..."

"...se a igreja não fizesse isto não teria durado vinte séculos..."

Em determinado momento, Heródoto Barbeiro pergunta:
_Mas não há uma adequação a sociedade?

Ele finaliza:

"...a sociedade que se dane..."

"...a sociedade não é flor que se cheire..."

Depois disto, ainda insistindo, o Heródoto Barbeiro perguntou:

_Isto não é fundamentalismo não?


E chegamos aqui onde eu queria chegar.

A sociedade de um modo geral, a fim de "matar os carrapatos, acabou matando os bois". A fim de legitimamente, buscar a democracia e a liberdade e se posicionar contra os atentados contra a vida, acabou por sua vez rotulando de fundamentalista todos aqueles que possuem uma crença e pensem diferente do ponto de vista liberal desta mesma sociedade.

Antes, uma mulher ser dona de casa era algo bom, hoje se é visto como retrógrado e careta. As mães preparavam suas filhas para serem mães e donas de casa e isto era normal. Hoje as mães preparam suas filhas para serem profissionais e disputar mercado com os homens e de forma alguma, querem ter uma filha dona de casa. Uma mulher, dona de casa, que questionada sobre
profissão, sente-se constrangida em ter que declarar: "do lar" , visto os olhares de censura.

Não cabe aqui um juízo de valor sobre a liberdade que uma pessoa tem de escolher o que quer para sua vida. Isto é legítimo. Agora, o que não se pode é rotular alguém de "careta" ou "retrógrado" por que esse alguém, usou essa mesma liberdade de escolha pela qual lutaram os liberais para permanecer igual. A opressão apenas mudou de lado. Queremos a liberdade de poder escolher ser diferente, mas essa mesma liberdade vale apenas para nós, ou para aqueles que nos são iguais.

Não entendo por que alguém que possuí uma crença é tachado de fundamentalista. O direito a crença e fé é algo previsto na constituição federal, cabendo até o agravante de que o estado é laico, sendo assim, não pode julgar nada referente a fé.

Essa palavra fundamentalista logo me faz vir a mente aqueles malucos que em nome de "Alá" ou de "Deus" , atam bombas no corpo e se explodem levando alguns inocentes mortos.

Por que penso isto? Por que criaram uma imagem da palavra fundamentalista, dando a ela, um sentido diferente do que é. Fundamentalista é aquele tem fundamentos. Fundamentos são bases sólidas em que se constroem coisas em cima. Do ponto de vista religioso, fundamento são as doutrinas e fundamentalistas são pessoas que seguem e lutam por essa doutrina e isto em nada tem a ver com os malucos "auto-explosivos".

Dia desses, um pastor Batista em Goiânia foi obrigado a realizar uma cerimônia de casamento, sob pena de ser preso caso não cumprisse a ordem de um juiz. A alegação era que ele estava discriminando a noiva, ao ser recusar em casar a mesma. A "justiça" então, resolve preservar o direito da noiva de não ser discriminada. O pastor argumentou que realizar o casamento feria
a doutrinas da sua fé, as suas bases de crença.

Não vou entrar no mérito da causa em si, mas quero perguntar sobre o direito a crença" do pastor e daquela comunidade, direito este previsto na constituição que foi ferido pelo estado, que é laico, ou seja, não tem condição de legislar sobre crença. Onde ficou tal direito?

Por que um cristão que tem sua fé baseada na bíblia não pode afirmar que o homossexualismo, segundo a bíblia é pecado? Por que esse mesmo cristão, que tem sua fé baseada na bíblia, não pode afirmar que o aborto é pecado? Ora bolas, por que o pobre do cristão não pode afirmar que o casamento, segundo sua crença bíblica é indissolúvel é outro casamento pecado?

Por que, dentro de nossas igrejas ou religiões, teremos que pregar uma fé que agrade a tal sociedade, e quando não agradar, o peso dos chicotes que dantes batiam nas costas dos que clamavam por liberdade, agora, baterão nas nossas costas, sendo empunhados pelas mãos destes mesmos, que clamavam por liberdade? Por quê ?

Com certeza, os pontos de vista de papa Bento XVI, bem como o ponto de vista de qualquer outra igreja cristã ou outra crença e fé, talvez pareçam inadequados diante da atual sociedade.

A minha liberdade de crença, e a expressão da minha crença, deve ser respeitada, na mesma medida em que se é respeitada a liberdade de ação de qualquer indivíduo da sociedade, e cabe este papel ao estado também.

Ninguém é obrigado a seguir nenhuma religião. Ninguém é obrigado e freqüentar nenhuma igreja, mas uma vez que livremente faz essa opção, deve estar sujeito as normas, regras e crenças da instituição a qual se filiou.
Se essas doutrinas não lhe agradam , cabe aos mesmo cair fora.

Teria, a minha fé e crença, ter que se adequar a sociedade? A fé existe para mudar a sociedade ou a sociedade existe para mudar a fé?

Enfim, parafraseando o Cony, "a sociedade que se dane, ela não é flor que se cheire".


Iverson
Curitiba 15/03/07

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