24 setembro 2007

Estará o mar Morto agonizando?


POR ELSA CLARO
— especial para o Granma Internacional

SEGUNDO crônicas de tempos passados, os antigos egípcios conheceram as propriedades especiais da lama à beira do mar Morto e o empregaram eventualmente para embalsamar suas múmias. Em 34 a.C., Cleópatra pediu a seu amante Marco Antônio que conquistasse as regiões baixas da Jordânia, pois ela desejava usar os minerais do lago para seus tratamentos de beleza e também para comercializá-los.

Foram precisamente os romanos que estabeleceram os primeiros balneários na zona, mas para uso exclusivo deles. O grego Aristóteles, que também esteve nestes territórios, deixou constatação escrita sobre as características notáveis do extraordinário lago, que possui propriedades curativas e a singularidade de que muitos dos minerais que compõem suas águas, ou da lama de suas margens, são únicos no planeta.

A zona onde está situado o lago é muito notável e está muito ligada a etapas importantes da história humana. O mar Morto faz parte da grande falha Sírio-Africana formada há cinco milhões de anos. Este mar interior de 60 quilômetros de largura e 17 de comprimento, está situado na parte mais baixa da Jordânia, a oeste limita com os montes da Judéia e a leste com o monte Moab, entre Israel, Cisjordânia e Jordânia.

Fazendo um percurso pela costa chega-se às Termas de Neve Zohar, cujas águas sulfurosas aliviam algumas doenças da pele, a reuma, a psoríase e outras enfermidades respiratórias.

Dali pode se observar o Deserto da Judéia e as Montanhas de Moab Sdom ou Sodoma, a conhecida zona bíblica de Sodoma e Gomorra, cujos habitantes sofreram o castigo divino devido aos excessos que cometiam.

Nas proximidades da zona, o rei Herodes construiu seu palácio de inverno, uma fortaleza que com o tempo se tornou o último bastião dos rebeldes judeus, pois no ano 70 d.C, quando caiu Jerusalém, os romanos sitiaram Metzadá durante três anos, mas, quando conseguiram entrar, encontraram apenas cadáveres, devido a que seus defensores decidiram suicidar-se em massa antes de caírem nas mãos do inimigo.

OS MANUSCRITOS

Outro elemento importante vinculado com a zona é a descoberta arqueológica nas Grutas de Qumrân, em cujo interior dois pastores beduínos acharam em 1947 os conhecidos manuscritos do mar Morto, antigos textos que formam a seita judaica dos essênios. Os manuscritos têm quase 800 escritos em hebraico e aramaico.

Vendidos num mercado local sem se conhecer com exatidão seu valor, passaram por diferentes mãos e se perderam depois no Egito e nos Estados Unidos, até que foram revistos por eruditos que perceberam sua importância cultural. Depois foram realizadas novas buscas que permitiram encontrar outros 600 pergaminhos.

Esses textos foram preservados até o ano 250 e 66 d.C, período em que tiveram lugar sérias revoltas judaicas contra os ocupantes romanos, e se consideram importantes fontes de estudo teólogico-organizativo do cristianismo e, em geral, um conjunto de concepções teológicas, morais e éticas.

DEIXARÁ DE EXISTIR?

Há anos que diferentes organizações e indivíduos, especialmente ecologistas, advertem que ao ritmo que se estão evaporando as águas do lago e a superexploração desmedida dos minerais que lá se concentram (empresas israelenses e jordanianas exploram esses minerais) podem fazer com que o mar Morto desapareça, e segundo previsões, será em 2050.

Contudo, alguns cientistas prognosticam que isso não acontecerá nem sequer no pior dos casos, pois existem equilíbrios naturais que fazem com que o lago se recupere e se adapte às circunstâncias que influem nele.

Muitos não têm certeza dessas afirmações e propuseram obras de engenharia gigantescas e custosas para criar canais a fim de bombear água do mar Vermelho. Este é um projeto multimilionário para o qual foi solicitada a contribuição da ONU. Situado numa falha tectônica continental próxima do mar Mediterrâneo, o mar Morto é abastecido pelo rio Jordão, situado ao norte, além de algumas pequenas correntes procedentes do leste.

Como Israel e a Jordânia utilizam de forma indiscriminada as águas do rio Jordão para irrigação agrícola e para consumo humano, o fluxo natural do rio para o mar Morto tem diminuído de maneira significativa. A isto soma-se a constante evaporação do lago, percebida pelo permanente nevoeiro que o caracteriza.

Isto é, a ação humana para o aproveitamento acelerado de seus sais e a diminuição do abastecimento da água estão destruindo um sítio considerado único no planeta, pois além das propriedades do lençol freático, a zona tem um clima peculiar que, em face da elevada pressão atmosférica e da existência de mais de 8% de oxigênio, a média existente nos terrenos adjacentes, torna possível a filtração dos potentes raios solares do deserto.

Alguns julgam que o conflito entre israelenses e palestinos afeta os esforços para uma resposta à crise do mar Morto, enquanto outros consideram que o tema não constitui uma prioridade nem para o governo de Israel nem para o da Jordânia.

Por outro lado, especialistas acrescentam que, inclusive, se o lago não desaparecer, a redução da superfície de um metro em cada ano, provocaria fenômenos ambientais preocupantes, pois a bacia está afundando e isso provocaria buracos de entre 8 e 10 metros de profundidade que estão surgindo em terrenos antigamente ocupados pelas águas. Esses buracos provocam desabamentos de construções, inclusive de estradas.

Como esta zona é a mais baixa de toda a superfície terrestre, as águas doces subterrâneas deságuam no mar, fato inconcebível em uma zona do Oriente Médio, onde este líquido tem um valor inapreciável. Para fazermos uma idéia dos danos sofridos na superfície original do mar Morto — 1.025 quilômetros quadrados — hoje apenas possui 625. Afirma-se que inclusive reabilitando-o, segundo propõem, jamais voltará a possuir essa superfície. •

RECUADRO...

DETALHES INTERESSANTES

• EM hebraico seu nome é Yam Ha’Melaj, e em árabe Al Bahr al Mayyit. Também é conhecido como Lago de Asfaltites, devido aos depósitos resinosos de alcatrão em suas margens, que na Idade Antiga foram utilizados. O mar Morto deve seu nome à ausência de vida vegetal e animal (à exceção de algumas bactérias muito resistentes).

Possui 21 minerais diferentes, dos quais 12 são exclusivos desse lugar. É rico em potassa, brometo, gesso, sal e outros produtos químicos que são extraídos em grandes quantidades, mas o ecossistema em que se localiza está deteriorando-se de maneira acelerada.

Nos arredores existem várias espécies endêmicas da flora e da fauna. Os mananciais térmicos e a lama preta melhoram a circulação do sangue e as funções respiratórias, entre outras vantagens reconstituintes. Este lago tem 76 quilômetros de largura e 16 quilômetros de comprimento, em uma superfície aproximada de 625 quilômetros. •

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