01 janeiro 2010

PENSE NISTO: O PERDÃO COMO DES-CRIAÇÃO

O PERDÃO COMO DES-CRIAÇÃO

Para meditar: Marcos 2: 1-12

“Filho, estão perdoados os teus pecados”—disse Jesus ao paralítico que havia sido descido pelo telhado, com a ajuda de quatro amigos, até ficar deitado, amarrado em cordas no leito, bem diante Dele, na casa onde Ele estava ensinando e conversando sobre o Evangelho do Reino de Deus.
Mas os doutores da Lei arrazoavam em seus corações:

“Por que fala ele deste modo? Isto é blasfêmia! Quem pode perdoar pecados senão um só, que é Deus?”

De fato perdoar pecados é algo divino não somente porque só Deus pode perdoar pecados, mas também porque ninguém consegue perdoar pecados sem Deus.

Continuando...

Então Jesus percebeu as cogitações deles pelo Seu próprio espírito, e disse-lhes:

“Por que arrazoais sobre estas coisas em vossos corações? Qual é mais fácil, dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados—disse ao paralítico: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para a tua casa.

Então o homem levantou-se e andou para casa!

Os que viram o ocorrido ficaram em total perplexidade e disseram:

“Jamais vimos coisa assim!”

Aqui estamos diante da alegria de Deus. Deus se regozija em perdoar os homens. Jesus disse que quando um pecador se arrepende há festa no céu, acontece banquetes de anjos, e brindes de louvor a Deus são levantados no universo.

Sim, perdoar pecados é a alegria de Deus!

Ou por que será que Ele alegremente criou o Universo? Não terá o perdão divino precedido a própria criação divina?

Somente Deus pode criar do Nada, e somente Ele pode tornar em Nada algo que um dia foi.

Perdão é uma des-criação que somente Deus pode realizar, e somente em Deus se pode visualizar tal ato.

Os escribas—que eram os doutos na Escritura—sabiam que nem o sumo sacerdote do Templo em Jerusalém podia fazer isto. Afinal, no dia do “Perdão”, uma vez a cada ano, antes de entrar no Santo dos Santos, o próprio sacerdote tinha que oferecer holocaustos pelos seus próprios pecados.

Quando Davi adulterou e encomendou a morte do marido da mulher que possuíra, Betesaba, o profeta Natã o visitou e o fez ver o pecado que cometera. Davi entrou em pânico de consciência. Disse: “Pequei contra o Senhor!” Natã, o profeta, todavia, lhe disse: “Também o Senhor já perdoou o teu pecado!”

O máximo que se poderia dizer era isto: “O Senhor te perdoou”; ainda que no dia a dia o que se poderia dizer era apenas a esperança do perdão. Algo como: “Que Deus te perdoe!”

Jesus, entretanto, nunca disse “Assim diz o Senhor: Perdoados estão os teus pecados”. Ele não poderia falar assim e ainda dizer: “Filho, estão perdoados os teus pecados”; visto que ao dizer “assim diz o Senhor”, Ele se tornaria apenas um profeta. Profetas falam da parte de Deus. Deus, porém, não fala de Si, pois Ele é.

Desse modo, Jesus nunca invoca a Deus para perdoar. Ele simplesmente perdoa.

Ninguém mais na terra poderia dizer aquilo em seu próprio nome sem estar basfemando.

O interessante é que o “arrazoado dos escribas” estava teologicamente certo na mesma medida em que estava completamente errado.

De fato, somente Deus pode perdoar pecados, assim como somente Deus pode trazer a revelação de que o pecado está perdoado.

A teologia não alcança isto como vivencia espiritual, mas tão somente como conceito!

Aqui há uma diferenciação entre a teologia e a revelação. Pela teologia pode-se saber o que é pertinente a Deus, mas não se pode saber quando Deus está sendo pertinente ao homem.

A teologia pode até dizer “somente Deus pode fazer isto”, mas não pode saber quando Deus mesmo está fazendo alguma coisa.

Eu disse no início algo que agora desejo repetir:

De fato perdoar pecados é algo divino não apenas porque somente Deus pode perdoar pecados, mas também porque ninguém consegue perdoar pecados sem Deus.

Sim, pela teologia eu posso saber que somente Deus pode perdoar pecados, mas não posso eu mesmo perdoar aqueles a quem Deus perdoou, visto que tal feito é divino, e requer uma revelação de Graça que a teologia não tem como me ajudar a apropriar em mim mesmo.

O melhor que a teologia faz é “arrazoar”, mas não sabe ver quando o ato divino está em curso; e nem consegue discernir que sempre que um coração perdoa pecados de outrem isto significa que Deus mesmo já perdoou.

Afinal, o melhor coração humano ainda nem chegou a pressentir o pecado que ainda será, enquanto Deus mesmo já o perdoou.

Por esta razão nunca temo dizer a alguém que me ofendeu “estão perdoados os teus pecados”. E quando o faço, é apenas porque sei que tal sinceridade e bondade em Graça só me acometem muito depois de Deus já haver perdoado a quem me deve ainda, mas que para Deus não deve mais.

Desse modo, quando perdôo alguém posso fazê-lo com toda certeza, pois eu, de mim mesmo, jamais seria capaz de perdoar alguém em meu próprio coração se ele, o meu coração, já não tiver sido entretecido pela Graça do perdão que Deus já concedeu ao meu próximo.

É por esta razão que sempre devo perdoar, visto que todo perdão que nasce em mim já chega como eco do perdão divino concedido ao meu próximo.

Nesse caso, quando não perdôo, não é o meu próximo quem perde alguma coisa, mas eu é que fico órfão de Deus em mim mesmo; visto que retenho contra o meu próximo aquilo que já não existe para Deus, visto que já foi por Ele des-criado: o pecado!

Quando meu ódio por alguém me faz pensar que Deus não é Pai daquela pessoa, não é a pessoa que perde alguma coisa, mas tão somente eu.

Daí toda essa história de “liberar perdão” não passar de basfêmia, visto que aqueles que assim declaram crerem que “liberando” o tal perdão estão fazendo bem ao outro, sem saber que é a sua própria salvação.

Mas há aqueles que pensam que o perdão não altera nada, e que o pecado continua sendo um fato-pecado sendo perdoado ou não.

Todavia, não é assim. Na realidade, quando eu me oponho interiormente ao perdão que devo ao meu próximo, eu apenas aumento o pecado, não o dele, mas o meu. Portanto, o perdão descria o mal, e a falta dele cria o mau em mim.

Há pessoas que não perdoam porque pensam que perdão de pecados precisam ser na melhor das hipóteses coisa profundamente dificultada, a fim de que ninguém se equivoque e continue pecando. Será você um desses?

O que essas pessoas não entendem é que perdão de pecados não significa concessão ao pecado. Ao contrário, a única forma de haver diminuição de pecados é justamente pela via do perdão. Sem perdão o pecado cresce não naquele que pecou, mas em mim, que julgo que não peco.

Há pessoas que fazem de tudo para tornar o pecado algo pesado e difícil de ser perdoado, e assim o fazem porque desejam que o perdão seja uma conquista do outro; e tal possibilidade, crêem eles, só pode ou deve acontecer quando o pecador já se esfolou todo a fim de provar que conquistou o seu lugar de mérito a fim de receber o perdão.

Nesse caso, que mérito há num perdão que já passou a ser uma dívida comprada pelos esforços do outro?

Ora, se é assim, não é Graça. E se não é Graça, é Lei. E se é Lei, não há perdão de pecados, visto que pela Lei os justificados são somente aqueles que não transgridem Nada e Nunca. E mais: se não é Graça para o meu próximo é porque não é Graça para mim. Assim, eu permaneço nos meus pecados, não necessariamente o meu irmão.

O fato é que Jesus ensinou que perdão não é algo pesado, e não deve ser dificultado. Foi por esta razão que Ele disse que o próximo sinceramente arrependido deve ser perdoado até 490 vezes no mesmo dia. Hipérbole que mostra que perdoar deve se tornar algo equivalente a respirar, pois de fato o perdão é oxigênio para a alma de quem perdoa, muito mais do que o é para a alma daquele que o busca. Pois se o busca em mim, a quem ele sente dever, é porque a Graça já o convenceu de culpa. E a Graça nunca convence de culpa sem antes já haver perdoado.

Assim, perdoar é minha própria salvação, não a do outro!

O preço do perdão foi pago antes da fundação do mundo pelo Cordeiro imolado antes de haver Criação.

Assim, antes de criar, Deus des-criou aquilo que, em existindo, tem o poder de acabar com a vida.

Desse modo aprendemos que para haver criação, antes teve que haver a des-criação daquilo que aconteceria em qualquer criação; pois uma criação que não necessitasse jamais da des-criação na forma de perdão seria tão perfeita quanto o Criador.

Ora, teme Deus alguma concorrência? Não tem Ele poder e bondade para criar seres perfeitos?

Não, não é o caso. Deus criou tudo muito bom. A ordem do Universo se estabeleceu em perfeição, e nenhuma perfeição será perfeita se dentro dela não houver liberdade. E como haverá liberdade sem que haja seres com consciência-de-si mesmos? E como haverá ou haveria tais seres se não houvesse a possibilidade da escolha? E como escolheriam sem correr o risco de qualquer coisa? Sem o risco de qualquer coisa não existe liberdade. Liberdade é risco. Liberdade, consciência e amor não se separam jamais. Visto que nenhum deles existe em perfeição sem o outro. Pois sem liberdade não existe consciência, e sem consciência não existe amor que seja amor. Que amor pode ser amor se não puder ser não-amor?

Portanto, Deus não estava se precavendo quando o sangue do Cordeiro foi conhecido desde antes da fundação do mundo, mas apenas sendo responsável em Seu ato criador. Afinal, como teria eu alguma consciência sem liberdade? E como teria eu liberdade sem o risco da queda? E como amaria a Deus com consciência da verdade se eu mesmo não tivesse tido de conhecê-la contra mim?

Assim, o perdão como des-criação é garantia da própria criação!

Perfeição para Deus não é ser perfeito, é ser desejando ser para Ele e Nele.

Então alguém pergunta: Nesse caso nunca mais se poderá pensar numa criação onde não haja mais a necessidade do perdão como descriação?

Não! Tal mundo chagará, quando o primeiro céu e a primeira terra passarem, e o mar já não existir. No entanto, essa Nova Jeruasalém só acontecerá depois de ter havido algo que tinha que ter vindo primeiro: a liberdade de escolher, e a possibilidade de aprender no cerne do ser, não como um programa de escolhas perfeitas, mas como experiência da verdade.

Ora, a perfeição que nos aguarda tinha que ser precedida pelas coisas que poderiam se corromper. Sem a experiência da corrupção nenhuma mente saberia o que é incorrupção!

Porém com Deus está o perdão!

O que é mais fácil, perdoar pecados ou criar a possibilidade da cura para o corpo? Que é mais fácil, perdoar o paralítico ou curar-lhe as pernas?

Pense nisto!

Caio
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