02 janeiro 2010

PENSE NISTO: SADIAS ALTERNÂNCIAS

SALMO 44

Num mundo caído como este Deus sempre age fazendo alternâncias de estações na vida. Somente tais “estações”, com suas variações, podem nos manter sadios.

Prosperidades, seguranças e poder não promovem bens duradouros para a alma.

Para poder dizer “tudo posso Naquele que me fortalece”, o ser humano tem que conhecer a Deus no “tudo” que implica existir.

Tem que ter experiência de abundancia e de escassez; de conforto e de desconforto; de poder e de fraqueza; de boa fama e de injúrias; de honra e de vergonha; de alegria e de luto; de construções e de desconstruções!

Somente nessa variedade e nessas alternâncias é que o coração se liberta de si mesmo e das circunstancias, e passa conhecer a Deus em tudo.

O salmo 44 nos apresenta essa variedade de estações.

I. Ele começa onde tudo começa na vida humana: no passado (1-8).

Ó Deus, nós ouvimos com os nossos ouvidos, nossos pais nos têm contado os feitos que realizaste em seus dias, nos tempos da antigüidade. Tu expeliste as nações com a tua mão, mas a eles plantaste; afligiste os povos, mas a eles estendes-te largamente. Pois não foi pela sua espada que conquistaram a terra, nem foi o seu braço que os salvou, mas a tua destra e o teu braço, e a luz do teu rosto, porquanto te agradaste deles. Tu és o meu Rei, ó Deus; ordena livramento para Jacó. Por ti derrubamos os nossos adversários; pelo teu nome pisamos os que se levantam contra nós. Pois não confio no meu arco, nem a minha espada me pode salvar. Mas tu nos salvaste dos nossos adversários, e confundiste os que nos odeiam. Em Deus é que nos temos gloriado o dia todo, e sempre louvaremos o teu nome.

Talvez essa seja a razão pela qual os “maiores e mais explícitos” cuidados de Deus por nós se manifestem no início da jornada de fé.

Deve ser algo parecido com o que acontece aos bebês. Necessitam de cuidados totais, até que comecem a ser estimulados a engatinhar, andar, correr, e depois a cuidarem de si mesmos; recorrendo aos pais somente quando a limitação se estabelece como fato intransponível.

Todos os que conhecemos a Deus como amor e redenção temos muitas histórias para contar acerca desses livramentos que Ele nos fez; à nós e aos nossos pais.

O salmo, portanto, recorre a tais dias, evoca tais lembranças, alimenta-se da memória desses cuidados divinos. Pois é assim com a alma.

II. Do Passado ele nos conduz ao Presente: onde tudo está acontecendo (9-16).

Mas AGORA nos rejeitaste e nos humilhaste, e não sais com os nossos exércitos. Fizeste-nos voltar as costas ao inimigo e aqueles que nos odeiam nos despojam à vontade. Entregaste-nos como ovelhas para alimento, e nos espalhaste entre as nações. Vendeste por nada o teu povo, e não lucraste com o seu preço. Puseste-nos por opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria àqueles que estão à roda de nós. Puseste-nos por provérbio entre as nações, por ludíbrio entre os povos. A minha ignomínia está sempre diante de mim, e a vergonha do meu rosto me cobre, à voz daquele que afronta e blasfema, à vista do inimigo e do vingador.

Uma existência que acontece sem a experiência da limitação haverá de se corromper. Daí, a mesma Graça que proveu libertações no passado, revelando-nos quem Deus é..., agora nos conduz na perspectiva de nos ajudar a discernir quem somos. E tal processo não se manifesta quando o homem está revestido de poder e segurança, mas apenas quando ele se conhece na limitação e na impotência. Primeiro ele tem que se conhecer na fraqueza (9-11). Sem a experiência da incapacidade pessoal para prover seu próprio livramento, o coração é forçado a confiar e a depender. Depois vem a estação do conhecimento do desvalor pessoal (12). É quando a pessoa olha para o que está acontecendo com ela e não entende a razão do “negócio”. Como pode ser que aquele que foi objeto de tantos cuidados, agora tenha que se ver vendido por nada? Que lucro tem Deus com minha calamidade?—é a questão da hora. Então chega a vez de se conhecer a vergonha (13-16). Os vizinhos reclamam que sua presença desvaloriza a vizinhança (13). A honra anterior dá lugar às brincadeiras e ao escárnio (14-16). O indivíduo tem que encontrar em si um valor que sobrepuje o esmagamento de desvalor que sobre ele se impõe socialmente: de fora para dentro, portanto.

III. Do Passado que revelou a Graça de Deus, tem-se que aprender a Graça de Deus também como um Presente que não nos honra, a fim de que o indivíduo tenha a chance de projetar, em fé, o Futuro do Presente e o Presente do Futuro (17-26).

Tudo isto nos sobreveio; todavia não nos esquecemos de ti, nem nos houvemos falsamente contra o teu pacto. O nosso coração não voltou atrás, nem os nossos passos se desviaram das tuas veredas, para nos teres esmagado onde habitam os chacais, e nos teres coberto de trevas profundas. Se nos tivéssemos esquecido do nome do nosso Deus, e estendido as nossas mãos para um deus estranho, porventura Deus não haveria de esquadrinhar isso? pois ele conhece os segredos do coração. Mas por amor de ti somos entregues à morte o dia todo; somos considerados como ovelhas para o matadouro. Desperta! por que dormes, Senhor? Acorda! não nos rejeites para sempre. Por que escondes o teu rosto, e te esqueces da nossa tribulação e da nossa angústia? Pois a nossa alma está abatida até o pó; o nosso corpo pegado ao chão. Levanta-te em nosso auxílio, e resgata-nos por tua benignidade.

Agora tem-se que aprender a ser de Deus por Nada. Chegou a hora de praticar a confiança e a fidelidade apesar da aparente infidelidade de Deus (17-19). Nessa estação aprende-se a Devoção perante o Absurdo (20-22). E, então, mergulha-se na maior de todas as esperanças: a fraqueza que dá ORDENS a Deus (23-26).

Deus recebe a ordem do fraco, esmagado, perplexo, que nada sabe e nada entende, mas que sabe que nada sabendo, mesmo assim Deus sabe por ele.

Nessa hora pode-se não estar entendo Nada, mas entende-se Nada em Deus.

Este é o último estágio da fé e do crescimento.

Ora, foi exatamente o espírito desse salmo que levou Paulo ao clímax de sua confiança. Afinal, Romanos 8: 31-39 se inspira e quanto também cita o salmo 44.

Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica! Quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito no salmo 44: Por amor de ti somos entregues à morte o dia todo; fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.

Assim, aprendemos no salmo 44 e em sua aplicação cristã feita por Paulo, que os mais que vencedores nesta vida são os que não temem experimentar as alternâncias das estações da soberania terapêutica de Deus em suas existências.

Esses são os que não podem mais ser abatidos pelo Absurdo da vida!

Caio
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